Tive de trabalhar hoje de manhã, na véspera de Ano Novo. No último transporte para chegar à empresa onde trabalho, ouvi uma senhora a falar com um "senhor" (palavra que usava). Levantei a cabeça, e lá estava ela ajoelhada a falar. Como estava a agradecer ao que chamava "senhor", pensei que estivesse a agradecer a algum senhor que estivesse perto que a tivesse ajudado. Quando contei aos meus colegas de trabalho, colocaram a hipótese de ser uma pedinte. Mas o tal senhor era Jesus. Pelos modos extravagantes e sotaque, presumo que seja de uma seita evangélica. Quando ela sentou-se numa cadeira, via-se perfeitamente que estava a falar sozinha. Dizia que estava no seu perfeito juízo e lembro-me de ter usado a palavra "manicómio", mas não me recordo do contexto. "É a sua opinião pessoal", disse eu a uma colega de trabalho que me acompanhava.
A senhora começou a agradecer por não se ter cruzado com "maricas, lésbicas e pedófilos". Tive de colocar uma mão à frente da boca porque estava a tentar conter o riso, apesar do Oráculo de Bellini dizer, a respeito dos escorpiões, que "por muito que se queira ver estampadas no rosto as suas emoções, é quase impossível", apresentando "sempre um rosto inexpressivo", cujos "sorrisos são raros" - eu sou conhecido por estar sempre a sorrir (a colega que estava ao meu lado até já me disse há semanas que pareço o Joker). Continuando... a senhora começou a fazer observações escatológicas, sobre o Juízo Final e uma serpente que não lhe fez já não-sei-o-quê. Quando preparava-se para sair, disse: "ainda bem que não houve hoje mariquices". Já não me recordo do que ela disse mais.
Há algum tempo que não via malucos nos transportes públicos. Já tinha visto outras mulheres - todas com sotaque brasileiro - a berrarem sempre a mesma coisa com conteúdo religioso. Lembro-me de um outro que parecia mais interessar-se em política, cuspindo para algo na parede depois de dar um berro. Quando tive de usar o metro à noite, assisti um corcunda a assustar meninas dentro do transporte público, fugindo de dois seguranças como se fosse um palhaço. Já encontrei um senhor que dirigindo-se a mim, pedia dinheiro depois de contar uma história sobre ele ter sido um grande cientista que não se deu bem na vida. Noutra vez, ao ajudar um desconhecido que procurava saber onde ficava certo lugar, fiquei a saber que tinha pertencido à IURD e assistia - ao longo de quase 2 km - o desprezo que ele tinha dessa organização. Numa estação de comboio, estava um bêbado que tinha sempre uma garrafa de vinho a falar sozinho. E há poucos dias ouvi o Primeiro Ministro Sócrates a prometer que os portugueses iriam ter maior poder de compra em 2009.
Os malucos deviam ser tratados e ter um espaço onde possam ser criativos e sentirem-se úteis. Não deviam estar a governar um país. Espero que pelo menos não continuem a haver mariquices em 2009. Desejo a todos um Bom Ano Novo.
Treta da semana: essa é que é essa...
Há 5 dias

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